terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A ATIVIDADE CRIATIVA

Bráulio Vinícius Ferreira.
Arquiteto e Professor.

Em relação à atividade criativa, alguns autores apontam para a existência de fases ou etapas reconhecíveis. Para Kneller (1999), por exemplo o processo criativo se desenvolve durante um período de tempo e este período pode ser analisado como sendo composto de vários estágios da atividade criativa. Este autor propõe uma fase inicial, a apreensão, que antecede a fase da preparação, a incubação, a iluminação e, por fim, a verificação.

Outros autores afirmam que a atividade criativa não pode ser dividida com esta precisão de fases, pois os vários processos que participam na criação são tão complexos e ligados uns nos outros que seria um equívoco separá-los numa seqüência.

A fase da apreensão é caracterizada por uma demorada preparação consciente, que é seguida por intervalos de atividade não consciente. O criador tem de ter o seu primeiro “insight”, ou seja, apreender uma idéia a ser realizada ou um problema a ser resolvido. Até o momento da apreensão, o autor não teve inspiração, mas apenas a noção de algo a fazer. A preparação é constituída pela investigação das potencialidades da idéia inicial. O criador lê, anota, discute, indaga, coleciona. Nesta fase, o criador pode propor possíveis soluções, ponderando a viabilidade de cada proposta.

A preparação inclui também o meio criador. A criação requer técnica, que pode ser bruta ou refinada, conforme a natureza do meio. A fase da incubação tem como característica o trabalho do inconsciente que, sem limites e desimpedido pelo intelecto literal, faz as inesperadas conexões que constituem a essência da criação. O momento da iluminação leva o processo de criação ao seu ponto máximo, pois, de repente, o criador percebe a solução para seu problema, o conceito que enfoca todos os fatos ou o pensamento que completa as idéias em que ele trabalha.

A última fase da atividade criativa é a verificação ou a revisão, na qual o criador precisa distinguir, na sua produção, o que é válido, pois a fase de iluminação é falível. Embora a apresentação das fases da atividade criativa seja tão evidente não há como separá-las.

Sobre o processo da atividade criativa, Kneller (1999) esclarece:

Primeiro há um impulso para criar. Segue-se a este um período, freqüentemente demorado, em que o criador recolhe material e investiga diferentes métodos de trabalhá-lo. Vem a seguir um tempo de incubação no qual a obra criadora procede inconscientemente. Então surge o momento da iluminação, e o inconsciente anuncia de súbito os resultados de seu trabalho. Há por fim, um processo de revisão em que as données de inspiração são conscientemente elaboradas, alteradas e corrigidas. (KNELLER, 1999, p.73)

Apesar de a atividade criativa apresentar um desenvolvimento de etapas distintas, a realização destas etapas acontece de forma dinâmica. O processo de realização de uma atividade criativa não acontece de forma linear; pelo contrário, é a relação das etapas que resulta em uma atividade criativa bem sucedida. Além das fases ou etapas da atividade criativa, existem algumas condições que devem existir para que, segundo Kneller (1999), ocorra a verdadeira criação. A receptividade é a primeira delas, pois se é certo que as idéias criadoras não podem ser forçadas, também é certo que elas não surgem se não se está receptivo.

Muitas idéias perdem-se simplesmente porque a pessoa se acha tão ocupada que nem consegue notá-las ou perceber sua significação. A imersão é a condição para se envolver com o assunto da atividade criativa. Tal condição nutre a imaginação e fortalece a atividade criativa, pois oferece uma série de novas abordagens em relação ao problema, evidencia novos caminhos para a solução de um problema e a ajuda o sujeito da atividade criativa a pensar mais profundamente e de modo mais global a respeito de sua atividade, revelando dificuldades e possibilidades que antes não seriam notadas.

As outras condições da atividade criativa são a dedicação e o desprendimento. A imersão naturalmente leva à dedicação, pois o criador precisa se envolver profundamente em seu trabalho para reunir a energia necessária à concentração que a atividade criativa exige. Ao mesmo tempo, quando o sujeito da atividade criativa focaliza em demasia seu trabalho, pode limitar seu pensamento e prejudicar a criatividade. Desta forma, é necessário desprendimento para que se consiga ver o processo como um todo, permitindo, assim, outras formas de leitura e observação da atividade criativa. A imaginação e o julgamento são também condições da atividade criativa. A imaginação produz idéias, porém não as comunica; já o julgamento comunica as idéias mas não as produz. A criação só ocorrerá se houver cooperação entre a imaginação e julgamento, uma vez que a atividade criativa é, ao mesmo tempo, produção e comunicação. A interrogação é outra condição da atividade criativa.

Para o pensamento criador, é tão importante fazer perguntas quanto respondê-las, pois ao se exprimir em forma de indagação, criadora torna mais fácil encontrá-lo o objeto da pesquisa. São também características da atividade criativa a amplitude e a fertilidade de suas abordagens; uma das marcas desta atividade criativa é não aceitar o erro como um ponto final, mas como motivo para mudar as formas de abordagens a respeito do objeto da criação. Muitas vezes o que parece erro pode ser uma intuição distorcida durante o processo da atividade criativa, podendo levar a uma outra direção, que pode ser a correta. O uso dos erros de forma inteligente é outra condição da atividade criativa.

O sujeito da atividade criativa precisa saber quando parar de dirigir sua obra e permitir que ela o dirija. Deve saber, portanto, quando é provável que sua obra seja mais sábia do que ele. É necessário, como condição da atividade criativa, a submissão do criador à obra de criação.

Referência Bibliográfica
KNELLER, G. F. Arte e Ciência da Criatividade. 14. ed. São Paulo: Ibrasa, 1999.

CRIATIVIDADE E INTELIGÊNCIA

Bráulio Vinícius Ferreira.
Arquiteto e Professor.

A criatividade pode ser melhor compreendida quando contrastada com a inteligência.
Segundo Kneller (1999), o pensamento criador é inovador exploratório e aventureiro, é atraído pelo desconhecido e indeterminado, pois o risco e a incerteza são seus estimulantes. O pensamento não criador; é cauteloso, metódico, conservador. Absorve o novo no já conhecido e prefere dilatar as categorias existentes a inventar novas. Outros autores denominam estes dois tipos de pensamento de “divergência” e “convergência”.

O pensamento não criador ou convergente é, em grande parte, medido pelo teste de inteligência que em geral exige repostas únicas e corretas para problemas exatamente definidos e, na maioria das vezes, essas respostas são convencionais. A pessoa que se submete a este tipo de teste deve apresentar como características boa memória e boa capacidade de reconhecer e de resolver problemas.

A inventividade, a especulação ou a exploração de outras idéias não estão presentes neste tipo de teste. Kneller (1999) estabelece uma relação entre criatividade e inteligência, porém, não afirma que tal relação é absoluta, mas que são poucas as pessoas altamente criativas que não são também altamente inteligentes. Este autor afirma que a criatividade não é uma qualidade única. O termo deve ser definido como um processo mental, como sendo um grupo de capacidades relacionadas, como fluência, originalidade e flexibilidade, que costumam agir em conjunto, o que justifica o fato de agrupá-las sob um único termo. Uma outra corrente de pesquisadores define criatividade como um tipo especial de solução de problemas marcado por traços como a novidade e a persistência.

Mas tal definição pode ser limitadora da amplitude do termo criatividade e pode gerar uma série de equívocos. Kneller (1999, p.24) afirma:

Nada se ganha, pois, quando se considera a criatividade como espécie de solução de problema. Para sermos justos com a criatividade, precisamos considerá-la como fenômeno, ou grupo de fenômenos, autônomo. Se o incluímos em outra categoria, acabaremos enevoando nossa própria visão dos fatos que investigamos. É obvio a qualquer pessoa que há certas soluções de problemas que são criativas. Mas é injustificado pressuposto ver em toda criatividade um caso de solução de problema. (KNELLER, 1999, p.24)

Um outro equívoco em relação à criatividade é relacioná-la apenas ao campo das artes. Da mesma maneira que um escritor transforma suas experiências da cena humana em novela ou peça de teatro, o cientista verifica e aprofunda os dados que adquiriu, a fim de produzir uma nova teoria. Uns e outros rearranjam conhecimento e experiência existentes, próprios ou alheios, em uma nova forma ou um novo padrão. Tanto o escritor quanto o cientista trabalham pela intuição e pelo intelecto, pois o escritor e o cientista têm de caminhar a partir de idéias que são sentidas mais do que compreendidas, que têm tanto de sensações quanto de pensamentos.

Alguns trabalhos ou profissões oferecem mais espaço do que outros à criatividade. A propaganda e o ensino podem ter funções mais criativas do que aquelas que exigem um trabalho excessivamente braçal, pois se exige do publicitário e do professor mais originalidade na ação e no pensamento.

Porém, Kneller (1999) afirma que as pesquisas demonstram que a criatividade contribui para o êxito das atividades mais comuns, como a de balconista de uma grande loja. Segundo o autor, em determinado estudo ficou patente que as vendedoras que se colocavam no terço superior da lista de vendas em suas lojas também se saíam melhor em testes de pensamento criador do que aquelas situadas no terço inferior. Seria, portanto, razoável admitir que até certo ponto todos os homens são criativos, à medida que podem exprimir seu potencial criador. Esta conclusão é baseada na lógica e não em experiências comprovadas, por isso devem ser encaradas com cautela; postura contrária poderia gerar conclusões equivocadas em relação ao potencial criativo do homem.

Referência Bibliográfica

KNELLER, G. F. Arte e Ciência da Criatividade. 14. ed. São Paulo: Ibrasa, 1999.

CRIATIVIDADE

Bráulio Vinícius Ferreira.
Arquiteto, professor e curioso.

A criatividade constitui hoje um dos termos mais utilizados como capacidade valorizada em todos os campos do conhecimento. Originalidade, inovação na solução de problemas, riqueza de idéias, pensamento flexível, abertura e fluidez no processo de produção são características das pessoas criativas, cobiçadas pelas empresas num mundo globalizado, no qual a concorrência em âmbito mundial e o desenvolvimento tecnológico exigem constantes inovações.

Lotufo (1999, p. 796) faz, a esse respeito, a seguinte colocação: Os estudos mais abrangentes sobre criatividade surgiram exatamente neste contexto da concorrência tecnológica.

Vários autores como Mühle, 1980, Ziechmann, 1980, Kneller, 1978, citam o choque do Sputnik, 1957, como ponto de partida das pesquisas amplas na área da criatividade. O avanço tecnológico da União Soviética resultou na preocupação da sociedade americana em buscar renovações profundas no campo da Psicologia e Pedagogia, diante do medo de perder a liderança técnico-científica.

A criatividade é própria da natureza humana, é uma de suas necessidades. Há uma tendência em tratar a criatividade apenas do ponto de vista artístico, restringindo o ato criativo ao campo das artes.

Na opinião de Ostrower (1996), o ato de criar só pode ser visto, num sentido amplo e global, como um agir integrado ao viver humano. Segundo esta autora, a natureza criativa do homem se elabora num contexto cultural, no qual todo indivíduo se desenvolve, e num contexto social, no qual necessidades e valores culturais se moldam aos valores da vida.

Há, então, dentro do indivíduo, uma polarização da seguinte relação: a criatividade que representa o potencial de ser único e a criação, que será a realização deste potencial dentro de um contexto. Uma das idéias de Ostrower é considerar os processos criativos na interligação dos dois níveis da existência humana: o individual e o cultural.

Alguns autores afirmam que, ao adentrar nesta importante e complexa área, haverá desde o início um problema conceitual que é a definição de criatividade ou do que entender por criatividade.

Segundo Martínez (1997), existem mais de 400 sentidos diferentes para o termo, além de palavras com significados aproximados, como produtividade, pensamento criativo, pensamento produtivo, originalidade, inventividade, descoberta e inteligência.

Pode-se definir criatividade como o processo de produção de alguma coisa nova. Este conceito parece estar intimamente ligado ao produto, ou ao resultado, mas Martínez (1997) afirma que o processo através do qual se chega ao produto, ou resultado, está implícito e tem um papel fundamental.

Para Ostrower (1996), o ato de criar está intimamente relacionado ao de formar. É basicamente dar forma a algo novo, não importando qual seja o campo de atividade. Desta forma, não só os campos da Arquitetura ou das Artes podem se apropriar do termo.

Gomes (2001) afirma que criar significa o processo pelo qual seres humanos encontram meios para conceber, gerar, formar, desenvolver e materializar idéias. Segundo este autor o ato de criar é resultante de dois fatores bem distintos nos seres humanos: os cinco sentidos perceptivos e a quantidade de conexões que o cérebro produz.

Não há como chegar a um conceito absoluto de criatividade, mas pode-se afirmar, em síntese, que criatividade é o processo de descoberta ou de produção de algo novo, que cumpre as exigências de uma determinada situação social, processo que, além disso, tem um caráter pessoal.

Segundo Gomes (2001), o processo criativo permite, àquele que o conhece, obter consciência de suas potencialidades para a prática profissional.

O conceito de criatividade como processo é fundamental para a atividade do arquiteto e urbanista, pois o produto que se espera obter como resultado de seu trabalho passa pela etapa da concepção, da representação e da construção ou implantação, e cada uma destas etapas de trabalho estabelece um processo de desenvolvimento particular, deixando perceber que a criatividade no processo de trabalho é fundamental para a atividade do arquiteto e urbanista.

Kneller (1999) afirma que existem quatro categorias de definições para criatividade: Ela pode ser considerada do ponto de vista da pessoa que cria, isto é, em termos de fisiologia e temperamento, inclusive atitudes pessoais, hábitos e valores. Pode também ser explanada por meio dos processos mentais, motivação, percepção, aprendizado, pensamento e comunicação – que o ato de criar mobiliza.

Uma terceira definição focaliza influências ambientais e culturais. Finalmente, a criatividade pode ser entendida em função de seus produtos, como teorias, invenções, pinturas, esculturas e poemas. Esta última concepção é que tem predominantemente guiado, por tradição, o estudo da criatividade. Este é, na verdade, o modo mais óbvio de abordar o assunto, uma vez que os produtos, sendo públicos e prontamente obteníveis, são mais facilmente avaliados do que personalidades. (KNELLER, 1999, p.15)

As definições de criatividade apontam para um denominador comum: o elemento novidade. Cria-se quando se descobre uma nova maneira de resolver uma atividade, quando se dá a um objeto um novo sentido, quando se cria sentidos para as palavras ou quando são feitas novas combinações de notas musicais, criando, assim, uma nova melodia. A novidade está sempre presente no ato de criar.

Para Kneller (1999), a novidade por si só não torna criativo um ato ou uma idéia. Outro fator que deve estar presente é a relevância. Como o ato criador é uma resposta de uma situação particular, ele deve resolver ou dar noções de solução para a situação que o fez surgir. Portanto, segundo este autor, um ato ou uma idéia são criadores não apenas por serem novos mas também porque conseguem algo adequado a uma dada situação.


Referências Bibliográficas:

GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Criatividade: projeto, desenho, produto. Santa Maria – RS: sCHDs Editora Ltda., 2001.
KNELLER, G. F. Arte e Ciência da Criatividade. 14. ed. São Paulo: Ibrasa, 1999.
LOTUFO, E. Criatividade no Ensino Universitário. In: Fragmentos de Cultura, Goiânia, v.9, n. 4, p.795-811, jul./ago. UCG, 1999.
MARTÍNEZ, A. M. Criatividade, Personalidade e Educação. Campinas: Papirus, 1997.
OSTROWER, F. Criatividade e Processos de Criação. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 1996.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

BOLACHAS DO MAR

Bráulio Vinícius Ferreira.
Arquiteto, professor e turista.


FOTO: Bráulio Vinícius Ferreira

O leitor já deve estar fazendo a pergunta:

O que um texto sobre bolachas do mar faz no blog do Bráulio? Eu explico.

Nestes primeiros dias do mês de janeiro fizemos uma viagem para o litoral. Fomos para a Bahia, mais precisamente Ilhéus.

Coisa boa é curtir férias com a família e os amigos. Viagem boa - tirando um trecho de 10 km que o governo bahiano insiste em chamar de estrada - tudo muito ótimo.
A praia uma diversão. Areia, mar, água muita água viva.

Uma bióloga lá de Ilhéus em entrevista a um telejornal local insistiu em dizer que não há uma super-população de água-viva. Mas vou te dizer uma coisa: nunca vi tanta assim. Felizmente nenhuma nos "atacou".
Mas o assunto é: Bolachas do Mar.

Em um passeio que eu e a minha digníssima esposa fizemos pela praia. Quem eu vejo lá na areia? Um ser vivo marinho...algo estranho...mas parecia-me familiar, já tinha visto aquela forma em algum lugar... meio retangular...

Eis que surge uma pergunta: O que é isso? Na hora veio a mente a aula de biologia da minha professora Lindomar. Uma bolacha do mar...é mesmo...sabe aqueles desenhos legais que os profesores de biologia faziam no quadro? Pois é era igualzinho. Uma bolacha do mar.

Depois do evento voltei satisfeito em saber que eu havia aprendido o que era uma bolacha do mar.

Foi inevitável pensar: Na utilidade daquele conhecimento, ou no que este conhecimento fez pela minha vida. É claro que conhecer as coisas é importante - não quero ser nenhum igonorante em biologia marinha - mas pense comigo: Tenho 35 anos. Neste período de vida fui ao litoral 7 vezes, o que me dá uma média extraordinária de uma ida à praia a cada 5 anos da minha vida. Pois bem. O conhecimento da bolacha do mar em nada acrescentou se não pelo fato de reconhecer que era um inofensivo...bicho do mar.

Por outro lado, já devo ter ido umas "duzentas" vezes à zona rural - não quis fazer a conta. E só sei reconhecer um Ipê em período de floração. Ignorância de um ecossistema importante para nossa vida, sobretudo aqui no centro do país.

Levo a lição da bolacha do mar para minha sala de aula:

O que ensinar para os jovens arquitetos: biologia marinha ou cerrado?
O que é importante para a construção do conhecimento de jovens arquitetos? Que conteúdos apresentar, discutir e aprofundar?