segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Deriva do Bem - Cidade de Goiás

"Um montão disforme. Taipas e pedras, 
abraçadas a grossas aroeiras, 
toscamente esquadriadas. 
Folhas de janelas. 
Pedaços de batentes. 
Almofadados de portas. 
Vidraças estilhaçadas. 
Ferragens retorcidas. 

Abandono. Silêncio. Desordem. 
Ausência, sobretudo. 
O avanço vegetal acoberta o quadro. 
[...] 
Cortina vulgar de decência urbana 
defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado 
— um muro. 

Fechado. Largado. 
O velho sobrado colonial
de cinco sacadas, 
de ferro forjado, 
cede. 

Bem que podia ser conservado, 
bem que devia ser retocado, 
tão alto, tão nobre-senhorial. 
O sobradão dos Vieiras 
cai aos pedaços, 
abandonado. 
Parede hoje. Parede amanhã. 
Caliça, telhas e pedras 
se amontoando com estrondo. 
Famílias alarmadas se mudando. 
Assustados - passantes e vizinhos. 
Aos poucos, a 'fortaleza' desabando. 
[...]"

[Fragmento: Velho sobrado - Cora Coralina]

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