segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O colapso da ponte de Gênova era previsível e poderia ter sido evitado

Uma ponte de cerca de 1,5 quilômetro de extensão entrou em colapso na manhã de 14 de agosto, em Gênova, na Itália. A ponte Morandi, construída na década de 1960, cruza o rio Polcevera, na porção oeste do porto de Genova, e conecta o centro da cidade com o aeroporto da região. As autoridades creditam o desastre a falhas estruturais somadas a uma forte tempestade que ocorria no momento do colapso.

O trecho destruído tem dezenas de metros de largura e abrange a porção da ponte que ficava imediatamente acima do rio Polcevera, além da torre de sustentação próxima ao rio; no momento do colapso estrutural, veículos caíram de uma altura de 90 metros sobre as águas e arredores.

A ponte Morandi faz parte da rodovia A10, que serve residentes e turistas da região, conectando a cidade com o aeroporto e outras localidades da costa mediterrânea da Itália e do sul da França. Inaugurada em 1968, a ponte recebe seu nome em homenagem a Riccardo Morandi, engenheiro civil responsável pelo projeto. De acordo com as autoridades rodoviárias, a estrutura passava desde 2016 por processo de recuperação de sua estrutura.

Somam 39 as vítimas fatais do colapso da ponte Morandi, em Gênova, na Itália. O incidente aconteceu na terça-feira, 14 de agosto, quando um dos componentes estruturais da ponte, uma torre de sustentação localizada entre trilhos ferroviários e armazéns, cedeu, desmoronando de uma altura de 45 metros.

A causa do colapso ainda não é conhecida, mas agora a atenção está voltada para o registro de manutenção da ponte, preocupações com sua integridade que datam de décadas, e como o colapso se enquadra no contexto mais amplo do envelhecimento da infraestrutura italiana.

Durante a última década, a Ponte Morandi, concluída em 1967, esteve sob manutenção constante, com um relatório de 2011 realizado pela operadora de estradas italianas Autostade per l'Italia alertando sobre a “intensa decadência” da estrutura. Os moradores locais há muito observam o trabalho de manutenção na ponte realizado todas as noites, com relatos ao The New York Times de que na noite anterior ao desastre, os trabalhadores se detinham justamente na porção da ponte que entrou em colapso.

A manutenção contínua na ponte alimentou a especulação e o debate sobre a sustentabilidade da estrutura e os temores de seu colapso. Antonio Brencich, professor de engenharia na Universidade de Gênova, disse em uma entrevista de 2016 a uma emissora italiana que “a Ponte Morandi é uma falha de engenharia” devido aos freqüentes reparos necessários.

A ponte foi construída em concreto armado pré-tensionado - em contraposição ao uso do aço, mais comum em pontes modernas - e o professor Brencich atribui a rápida deterioração do material aos grandes reparos e substituições necessárias a partir dos anos 1990. Como as vigas que conectam porções da ponte foram revestidas em concreto, uma análise precisa de sua condição também nunca foi possível, de acordo com Brencich.

Em sua opinião, o custo de manter a ponte já havia ultrapassado o custo de demolição e reconstrução de uma nova estrutura. Essa ideia era reforçada por Giovanni Calvini, líder da federação de negócios de Gênova, que disse em 2012 que a ponte estava em risco de colapso dentro de 10 anos e precisava ser substituída.

O colapso da ponte também provocou um debate mais amplo sobre o estado da infraestrutura italiana. De acordo com a BBC e o Corriere Della Sera, a Ponte Morandi é a quinta ponte a entrar em colapso na Itália nos últimos cinco anos. Em resposta, o ministro de transportes da Itália ordenou uma revisão detalhada da segurança da infraestrutura do pós-guerra no país - que está mostrando sinais de rápido envelhecimento.

Em entrevista ao The New York Times, o diretor do Instituto de Tecnologia da Construção, Antonio Occhuizzi, alertou que, como a infraestrutura da Itália se aproxima do tempo de vida útil, ela “precisa ser cuidadosamente reexaminada [...] e em alguns casos pode ser reforçada. Em outros, terá que ser demolida e reconstruída completamente. ”

"Nossa posição, tradicionalmente, é tentar conservar em vez de demolir e reconstruir, como acontece em outros países [...] O colapso da ponte genovesa foi um alarme sério porque não é um caso isolado - nos últimos três anos, algumas de pontes entraram em colapso na Itália, e elas têm todas cerca de 50 anos de idade." 
-Antonio Occhiuzzi, Diretor do Instituto de Tecnologia da Construção

Dando sua opinião sobre o incidente, o arquiteto italiano Renzo Piano compartilha a indignação, dizendo em uma entrevista ao La Repubblica que "as pontes não desmoronam por acidente, não digam que isso foi um acidente [...] Na Itália, fabricamos equipamentos sofisticados [para análise de terreno] que exportamos para o mundo inteiro. Mas não usamos essas ferramentas em nossas próprias construções. Por quê? Apenas com uma abordagem diagnóstica teremos precisão científica."

Embora existam muitas evidências de que esse desastre era iminente, a causa definitiva e o ônus da responsabilidade provavelmente levarão algum tempo para serem indicados. Enquanto isso, o vice-ministro dos transportes da Itália afirmou que o restante da ponte será demolido.

Via ArchDaily

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Todos os comentários são bem vindos.
Desde que não sejam comentários anônimos.